Disciplina

O dia começa antes do sol

MS·Nov 2026·7 min de leitura

Às quatro e quarenta o apartamento tem um som que eu não conhecia antes. Não é silêncio. É a geladeira, o tique do relógio da cozinha que ninguém escuta de dia, um cano em algum andar de cima. Eu fico uns dois minutos sentado na beira da cama ouvindo isso antes de levantar, não por disciplina, mas porque virou o meu jeito de confirmar que o dia ainda não começou para mais ninguém. Depois a cafeteira, o tênis, a porta.

A rua está vazia de um jeito que não é a mesma coisa que vazia às onze da noite. Às onze a cidade está terminando. Às cinco ela ainda não decidiu nada. Os poucos que estão acordados são padeiros, porteiros no fim do turno, uma mulher que corre com uma lanterna de cabeça e que eu já reconheço de longe mas com quem nunca troquei uma palavra. A gente se cumprimenta com o queixo. É o máximo de conversa que esse horário comporta, e acho que é por isso que gosto dele.

O treino é a desculpa. Eu digo para as pessoas que acordo cedo para treinar, e tecnicamente é verdade, mas se fosse só pelo treino eu poderia ir à academia às sete, às oito, no almoço. O que eu quero mesmo é a hora e meia que existe entre acordar e a primeira mensagem. O corpo precisa de algo para fazer enquanto a cabeça esvazia, e levantar peso serve bem para isso porque exige atenção mas não exige pensamento. Você conta repetições. Você respira. Você sente o ombro reclamar de um jeito que vai ter que resolver em algum momento. Não cabe mais nada.

Demorei para entender que eu não estava treinando. Eu estava comprando silêncio e pagando com sono.

“Eu estava comprando silêncio e pagando com sono.”

Durante um bom tempo eu fiz isso do jeito errado. Acordava às cinco porque achava que pessoas sérias acordam às cinco, e dormir até sete me dava uma sensação de derrota, de ter perdido alguma coisa para uma versão minha mais rígida. Isso não é disciplina. Isso é autopunição com planilha. A diferença é sutil por fora e enorme por dentro: na autopunição, o horário é um juiz; no design de vida, o horário é uma decisão de arquitetura, como escolher de que lado fica a janela. Você acorda cedo porque é a única hora em que a casa é sua, e não porque dormir mais seria um pecado. Quando eu mudei essa justificativa, o despertador parou de ser inimigo. Nos dias em que não consigo, eu não consigo. O prédio continua de pé.

O que acontece com a cabeça nesse intervalo é a parte mais difícil de explicar sem soar místico, e eu não quero soar místico. É simples: durante essa hora e meia, eu ainda não sou necessário para ninguém. Nenhuma pergunta foi feita. Nenhuma expectativa chegou. A mente, quando não precisa responder, faz uma coisa diferente do que faz no resto do dia. Ela vagueia, mas não é a vagueação do cansaço noturno, em que tudo parece problema. É mais parecido com arrumar uma gaveta sem motivo. Ideias que ficaram enroscadas no dia anterior se soltam sozinhas. Eu resolvi mais problemas de trabalho entre a segunda e a terceira série de agachamento do que em qualquer reunião, e não porque estava pensando neles. Estava justamente não pensando.

Agora o custo, porque tem custo, e os textos sobre acordar cedo costumam esconder essa parte.

Eu durmo às nove e meia. Isso quer dizer que a noite, aquele lugar onde a vida social dos adultos acontece, praticamente não existe para mim. Jantar com amigos é um evento que exige negociação. Um filme que começa às dez é um filme que eu vou ver outro dia. Já perdi conversas boas por estar bocejando às nove, e já vi no rosto de alguém a leitura de que eu estava entediado, quando eu estava apenas acabado. A pessoa que divide a casa comigo passou a ter uma parte da noite que é só dela. Ela diz que não se importa e eu escolho acreditar, embora saiba que uma parte de mim se retirou de um território que antes a gente ocupava junto.

Também fiquei mais chato. Não tenho orgulho disso. Quem controla o próprio horário com esse grau de cuidado começa a ver o horário dos outros como desorganização, e isso é uma arrogância pequena, mas é arrogância.

Então vale? Eu me pergunto isso com frequência, geralmente no inverno, quando às quatro e quarenta está escuro e frio e a cama é o lugar mais razoável do mundo. A resposta honesta é que não sei se vale no sentido de uma conta que fecha. O que eu sei é que, nos anos em que não fiz isso, eu não tinha nenhuma hora do dia que fosse minha. Tinha horas livres, que é outra coisa. Hora livre é hora que sobrou. A manhã escura não sobra. Eu vou buscar.

Se é sustentável, também não sei. Tem uma versão de mim, daqui a dez anos, que leu este texto e riu, porque descobriu que o silêncio também existia às sete, ou que a vida precisava mais da noite do que da manhã. Eu não consigo discutir com ele ainda. Por enquanto, o que tenho é o som da geladeira às quatro e quarenta, o tênis ao lado da porta, e a suspeita de que estou trocando uma coisa que não consigo medir por outra que também não consigo. A mulher da lanterna já vai estar na rua. A gente vai se cumprimentar com o queixo.

— MS